eu sempre rezo pelo meus mortos no dia dos mortos. aqui em casa, a gente acende velas e incensos e pede pra que continuem na luz e não façam atalhos. eu sempre achei que rituais definem quem nós somos: do mais complexo ao mais simples. por que não chorar por quem você perdeu? minha mãe sempre me diz isso. sempre diz que é um dia em que podemos só sentir a dor, sem se preocupar com a força. a força que continuamente nos preocupamos em manter. eu sempre achei que lidar com a ida fosse uma eterna distração: você finge que esquece aquela falta e vai no embalo de uma vida que te impede de parar. você segue, sem saber o porquê. só vai. eu sempre acabei perdendo pessoas de todos os dias, que é como que chamo aqueles que são como café toda manhã ou jornal toda noite. e perder pessoas de todo dia é como desarrumar a rotina e ter que aprender tudo de novo. quantas vezes eu tive que fazer isso? hoje é o dia em que me lembro. que deixo o choro sair sem ser no banho, que me deito e peço, não pra esquecer, mas pra lembrar ainda que passe muito tempo. porque a memória é o que faz com que as pessoas vivam além da partida. é o que mantém elas no mundo. é um gesto de amor. porque a dor da perda, por mais dolorosa que seja, ainda é sobre amor. na verdade, é um dos caminhos dele. aquele que você nunca quer cruzar, mas que eventualmente cruza. eu sempre disse que o fim é a coisa mais natural que existe. sempre acreditei que essa afirmação era um tapinha no ombro, um conselho daqueles que te permite suportar o insustentável. é acreditar que não tinha outro jeito, que foi o que aconteceu porque tinha que acontecer, porque algumas linhas de vida não foram feitas pra serem longas. essa é uma das coisas que minha mãe me diz. que linhas longas são pra quem precisa passar por algo, nem que seja a saudade de quem não pode continuar. nesse dia, especificamente nesse dia, a gente se ajoelha pra não escapar da saudade. pra se entregar a ela e sofrer. é um dia de paz, apesar de tudo. um dia de permissão. e quando eu penso nisso, nessa fé de que as coisas existem e são boas do outro lado, me sinto menos sozinha. acredito que eles estão menos sozinhos. porque eles são capazes de ouvir e de saber que foram amados. é preciso dizer que foram amados. independente do fim, independente da morte.
li alguém falando pra yas sobre uma paixão de onze anos
não consigo formular frases muito longas
graças ao
rivotril
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como é que alguém deixa a mesma dor durar mais de uma década
pulsando
a não ser que
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ela se grude na próxima versão do mesmo soluço
ou seja a casca que se cura enquanto sangra do avesso a espera de um arranhão
uma mensagem
~ queria saber da sua irmã ~
uma troca de olhares no metrô
aquela festa na orla do leme as 32 mensagens aquela cerveja artesanal pavorosa a forma como a gente se olha será que em algum momento algum dia a gente esquece onze anos de reconhecimento e deixa de se ver ali?
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a yas respode que essa é uma versão que não condiz com a realidade
foram muitas nos últimos 20 anos?
puta merda
minha cabeça dói e penso que talvez seja sequela da covid recém adquirida sinusite tristeza crônica bipolaridade
não sei de onde veio a última crise ou justamente porque dessa vez precisei ser dopada e nenhum remédio psiquiátrico é mágica
nada nada nada na vida é mágica
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sabia que a última vez que eu quis morrer foi a vez em que eu tentei e de lá pra cá eu no máximo fiquei muito triste e procurei ajuda rápido?
tem sido anos bons, eu te dizia, tem sido meses bons
eu realmente tenho gostado de viver
(como eu poderia pedir por favor não arruíne isso dessa vez?)
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como alguém deixa algo tão ruim chegar tão longe?
era eu que tinha de me mover era eu que tinha de me mover era eu que tinha de ter mantido a distância
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tive delírios/sonhos sobre tsunamis, terremotos, quedas de raios e outros desastres naturais. num deles eu levava uma rocha radioativa pro meu leito de morte porque ela brilhava uma luz bonita sem a qual eu estaria no escuro
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acho que carregamos essas dores através das décadas porque de alguma forma foi possível nos convencer de que sem elas estaríamos pior.


